domingo, 14 de dezembro de 2014

El Mismo Amor la Misma Lluvia (1999)

A dica de hoje é um sensível e delicioso filme de 1999, dirigido pelo argentino Juan José Campanella, que é diretor de TV nos EUA ("Dragnet", "Law & Order"). 

Lançado no Brasil apenas em vídeo e somente no ano de 2003 (portanto depois de O Filho da Noiva, também dirigido por Campanella - 2001), O Mesmo Amor, a Mesma Chuva é, na verdade, o primeiro filme da especialíssima parceria entre Campanella e Darín, composta pelos filmes O Mesmo Amor, a Mesma Chuva (1999), O Filho da Noiva (2001), Clube da Lua (2004) e O Segredo dos seus Olhos (2010) - que levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2001.

É muito bom poder ver Ricardo Darín, ainda bem novinho, interpretando o escritor Jorge Pellegrini e sua história de amor e desamor, encanto e desencanto, medos e coragens, vivida ao longo de quase 20 anos com Laura Ramallo,  a aspirante a artista plástica interpretada pela incrível atriz e cantora Soledad Villamil.

O pano de fundo da trajetória do casal, alternando momentos de individualidade e romance, é a história da Argentina entre 1980 e 1999, começando exatamente quando a Argentina está sob o governo do general e ditador Jorge Videla.

Enquanto acompanhamos o romance entre Jorge e Laura, a Argentina enfrenta o Reino Unido na guerra das Malvinas, passa pela redemocratização, elege Raul Alfonsín, frustra-se com ele e elege Carlos Menem.

Como a refletir dentro deles o cenário político no qual estão inseridos, e essa é a grande mágica do filme, o casal se apaixona e desapaixona, encanta e desencanta, duvida e acredita, une-se e se separa, nos dando certeza de que viver e amar, mais do que um ato de coragem individual, são ações intrinsecamente ligadas com o mundo coletivo no qual estamos inseridos.

Confira o filme completo, com áudio original:



domingo, 30 de novembro de 2014

Séptimo (2013)

Não entendo por que as pessoas, e a crítica em geral, se referem a Séptmo tão somente como um filme de suspense.

Não é!

Aquele apartamento no sétimo andar de um prédio em Buenos Aires, abriga muito mais histórias e mágoas que dizem com relacionamento e relações familiares, do que possa supor qualquer vã história de suspense.

Se você começar a assistir o filme com a perspectiva única de ver um filme de suspense, chegará um determinado momento em que se perguntará “que diabos de porcaria de filme de suspense é esse?”

Isto porque dentro da história do sumiço dos filhos do casal recém divorciado, Sebastián, interpretado pelo tudo de bom Ricardo Darín, e Delia - a atriz espanhola Belén Rueda, de O Orfanato, há uma porção de “furos”, se teimarmos em ver o filme unicamente sob a ótica do filme de suspense.

Há um suspense, é certo – o pai desce pelo elevador e os filhos,  Luca (Abel Dolz Doval) e Luna (Charo Dolz Doval) pela escada, numa brincadeira que se repete há tempos e sobre a qual a mãe, ao deixar as crianças com o pai, advertira-o a não repetir, e os filhos desaparecem nesse ínterim.

A lógica diz que eles têm de estar no prédio, pois o pai, vindo do sétimo andar pelo elevador, ainda que o elevador, antigo, tivesse parado por um breve instante, como a indicar uma pequena falha, é certo que, mesmo assim, as crianças não chegariam antes dele ao térreo pelas escadas.

Além disso, o porteiro demonstra convicção de que esteve por ali o tempo todo e que por ali as crianças não passaram.

Darín, de rosto barbeado e terno, empresta o corpo a um advogado que deveria sair para um julgamento onde defende alguns clientes que sua ex-esposa, antes de sair para o trabalho, chama de pilantras e delinquentes.

Ele deveria estar na audiência de julgamento, mas seus filhos desaparecem. A cada instante alguém ligando de seu trabalho para lembra-lo de que se não aparecer estará frito.

Sua irmã, Gabriele, também telefona se queixando do ex-marido que a está ameaçando, num caso que parece ser um caso complicado de família em que Sebastian também atuou.

A mãe das crianças, antes de sair para o trabalho, pede que Sebastian assine os papéis autorizando-a a voltar para a Espanha com os filhos do casal, pois quer cuidar de seu pai que está doente.

Sebastian não quer se afastar dos filhos e lembra que o sogro tem dinheiro suficiente para contratar uma enfermeira. Delia lembra ao pai de seus filhos o quanto o seu próprio pai o ajudara quando se conheceram em Madri e o quanto era responsável pelo sucesso profissional e financeiro do ex- marido. Argumenta que ele poderá visitar os filhos na Espanha sempre que quiser.

Ainda neste momento do filme, nos vem a informação de que ambos estão divorciados porque Sebastian traiu a mulher durante um ano com a melhor amiga dela.

Depois que os filhos somem, o filme passa a transitar numa dimensão mais etérea...

Ou seja, a forma como ele trata de procurar as crianças, como pede ajuda ao síndico do prédio, um policial com o qual tinha brigado numa reunião de condomínio, como se relaciona com a ex-esposa, após a mulher retornar do trabalho, desesperada com a notícia do sumiço dos filhos, o modo como o celular fica guardado no bolso do paletó e com a bateria acabando, quando se está esperando o telefonema de supostos sequestradores...

Tudo, enfim, que diria com um filme policial e as técnicas de suspense, passa a ocupar uma dimensão mais anuviada, irreal e, neste particular, Patxi Amezcua, o um diretor catalão de Sétimo, faz com maestria uma transposição do que deveria ser um filme de suspense, para os aspectos mais subjetivos que, estes sim, são o verdadeiro plano central do filme.

A maior surpresa de Séptimo é que você só se dá conta disto quando o filme acaba. Não posso dizer mais porque alguns leitores do blog já brigaram feio comigo por eu contar o final dos filmes.

Eu particularmente não vejo mal algum em assistir um filme sabendo o final, pois o mesmo se dá quando a gente lê um livro e vai pro cinema ver a versão animada.

Mesmo assim, em respeito aos leitores do blog, me reservo a informar apenas que, em Séptimo os personagens centrais cometeram faltas graves.

Ora, trair uma mulher com sua melhor amiga durante um ano, até ser descoberto, é, sem dúvida, uma grande canalhice e falha grave de caráter.

A questão é: quando se trata de vingança, até onde se pode chegar quando se é a mãe dos filhos do homem que a feriu?

Ficam as questões, para posterior discussão: os pecados do homem, sempre serão perdoados, ao tempo em que os delitos femininos serão tratados como crimes brutais? Nas questões envolvendo direitos de família, é difícil separar o homem – canalha, covarde, traidor – do grande e bondoso pai que é? A simbiose entre os papéis de mulher – traída, enganada, ludibriada, e mãe – zelosa, amorosa – poderá algum dia ser quebrada? Até que ponto os filhos menores são vulneráveis aos sentimentos derivados das questões sexuais de seus pais?

Sim, aquele apartamento no sétimo andar de um prédio em Buenos Aires, abriga muito mais histórias e mágoas que dizem com relacionamento e relações familiares, do que possa supor qualquer vã história de suspense.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Que Bom te Ver Viva (1989)

Na abertura da 9ª Mostra Cinema e Direitos Humanos do Hemisfério Sul, assisti  em Curitiba, o filme QUE BOM TE VER VIVA, da cineasta Lucia Murat, que aborda a questão da tortura sob o ponto de vista de quem a ela sobreviveu.  

O filme começa com a frase do psicanalista judeu Bruno Bettelheim“A psicanálise explica porque se enlouquece, não porque se sobrevive”, dando a pista, logo no início, de que o roteiro tratará de histórias de superação. 

Porém, muito mais que isto, QUE BOM TE VER VIVA aborda, sobretudo, a questão da tortura feminina, e os dilemas corpo x sofrimento, vivenciados sob o prisma do ativismo ideológico de oito ex-presas políticas que foram cruelmente torturadas durante o regime militar. 

Os depoimentos e narrativas reais, perfeitamente orquestrados pela direção de Lucia, que os toma em plano 3 x 4, conferindo-lhes ainda maior dramaticidade, são intercalados com a narrativa  monóloga e teatral da atriz Irene Ravache, com falas que refletem memórias de uma mulher que também foi torturada e sobreviveu, talvez uma colcha de retalhos da somatória das oito personagens reais, talvez o alter ego da própria Lucia Murat.
Durante o filme, passamos a conhecer as histórias de mulheres que sofreram torturas na ditadura militar pós AI5, bem como a forma encontrada por elas para sobreviverem a tais horrores.

Maria do Carmo Brito, 44 anos, era ex-comandante da Vanguarda Popular Revolucionária. Maria Luiza Garcia Rosa, 37 anos, foi presa e torturada três vezes. Regina Toscano, 40 anos, epilética e grávida, torturada ao ser presa em 1970, perdeu o filho na cadeia. Não se deu por vencida, e posteriormente teve mais três filhos. Roselina Santa Cruz, 43 anos, presa e torturada, sofre com familiares “desaparecidos” durante a ditadura.
Criméia Schmidt de Almeida, 41 anos, perdeu o marido, o sogro e o cunhado na guerrilha do Araguaia. Na época enfermeira em São Paulo, teve um filho nascido na cadeia.  Jesse James, 37 anos, foi presa em 1970 durante tentativa de sequestro de avião.  Torturada durante três meses e presa por nove anos, também teve sua filha na cadeia. Com repercussão nacional, seu caso ganhou a atenção das forças da ditadura, que queria utilizá-la como exemplo, obrigando-a a renegar a esquerda na televisão, como, cogita-se, tenha feito um famoso ex-"guerrilheiro", envolvido na morte de Marighella, que já foi candidato a vice-presidente representando a direita.
Jesse James, ao contrário, não sucumbiu.
Grande homenageada da 9ª Mostra Cinema e Direitos Humanos do Hemisfério Sul , a jornalista e cineasta Lúcia Murat foi agente do MR-8, tendo sido presa e torturada em 1971, quando permaneceu no cárcere por três anos e meio. 
A psicanálise e a racionalização estão presentes no filme do início ao fim, e, diz-se que QUE BOM TE VER VIVA é resultado de sete anos de terapia e foi realizado por Lucia para exorcizar os seus demônios.
De revistas íntimas a estupros coletivos, do uso de baratas e lagartixas à degradação de, menstruadas, serem penduradas de ponta-cabeça no pau de arara, as mulheres contam suas histórias reais, de terem sido expostas a fotos de seus ex-companheiros decapitados, apanharem até não mais aguentarem, a ponto de implorarem pela morte, ocasião em que ouviam do torturador: “eu não vou te matar. Eu te mato se eu quiser”, numa tradução da mais absoluta impotência e fragilidade em que se encontravam.
Todas elas têm em comum atribuírem sua sobrevivência a tais horrores em função do poder feminino de dar a luz e gerar uma nova vida. Em seus filhos e filhas, alguns paridos na prisão, encontraram a revanche da continuidade da vida.
A questão do feminino fica muito acentuada e a gente percebe, vendo o filme, que o Brasil avançou um pouco na questão de gênero, de 89 pra cá, quando observa o monólogo de Irene Ravache sempre se dirigindo ao público no masculino, apesar da essência de temática feminina e, mais ainda, quando percebe a extrema importância da maternidade como a grande forma de resgate de vida para aquelas mulheres.
Uma delas parece que nos pede desculpas, quando informa que a gravidez na prisão foi traumática e que, por isto, nunca mais conseguiu engravidar novamente.
Eu, que nunca fui presa ou torturada, e mesmo assim tive um filho só, senti o distanciamento entre o que parecia mais importante para as mulheres daquela época e como vivenciamos de forma diferente nossa condição feminina, uma geração depois, nós, as mulheres da geração seguinte.
Talvez por isso mesmo, porque não tenhamos sentido a necessidade de apalpar a continuidade de nossas vidas, muitas mulheres da geração seguinte, nem quiseram experimentar a maternidade, sem que, contudo, isto tenha representado uma escolha que colocasse em cheque sua condição feminina.
De qualquer forma, fechado o parênteses, esta não é exatamente a principal questão do filme, que trata mesmo é do estar aprisionada e livre, ao mesmo tempo, dentro de um corpo de mulher que sofreu os horrores degradantes da tortura e conseguiu ser mais forte do que tudo que rasgou, feriu, cortou, sangrou, dilacerou, mantendo-se a vida em toda a sua expressão, a despeito dos traumas que marcaram profundamente a alma dessas mulheres, que escolheram sobreviver.
QUE BOM TE VER VIVA é um filme real, sensível, dramático, que emociona e toca profundamente. 
Para mim foi difícil segurar o choro durante praticamente o filme todo. Difícil, emocionalmente, sermos colocadas de frente com a inexorável verdade de que o Brasil teve um período tão sombrio, onde os direitos civis foram suprimidos e os torturadores podiam atuar a vontade, sem ninguém que os pudesse impedir.
A catarse do filme está no fato de que, entretanto, no entanto e portanto, é possível sobreviver, pois a liberdade e a vida têm maior apelo à alma humana do que a tortura e a morte.
Vigiemos, pois.

(*na foto, esta blogueira que vos fala, Com a cineasta Lucia Murat, em Leituras da Ditadura.)

domingo, 24 de agosto de 2014

Il Capitale Umano (2014)

Uma realização franco italiana premiadíssima na Itália (ao lado do A Grande Beleza, do Sorrentino), Il Capitale Umano tem uma trama intrincada e inteligente que nos deixa exclamando alto, quando termina: “Excelente! Excelente!”

O filme tem três capítulos que contam a mesma história sobre a ótica de três diferentes personagens.

O plano central, a partir do qual se desenrolam os enredos, são duas famílias italianas, uma de classe média e outra de classe alta, cujos filhos adolescentes estariam namorando.

O filme começa com Dino Ossola (Fabrizio Bentivoglio), o pai de Serena (Matilde Gioli) levando-a a mansão da família do namorado, Massimiliano (Guglielmo Pinelli), e acabando por penhorar sua casa para investir nos fundos da família, após um joguinho de tênis, no qual um parceiro dos ricaços faltara e para o qual o oportunista se escalara.

Adaptação do próprio diretor, Paolo Virzì, o filme é baseado no livro de Stephen Amidon, que tem o mesmo nome.

Na família de Dino, sua segunda esposa Roberta (Valeria Golino) é psicóloga e anuncia que está grávida de gêmeos. A filha de DinoSerena, está desencantada com o namorado rico e se envolve com Luca Ambrosini (Giovanni Anzaldo), um jovem problemático e suicida que conhece na sala de espera do consultório da madrasta Roberta.

O patriarca da família BernaschiGiovanni (Fabrizio Gifuni), está preocupado com a queda brusca das ações do fundo Bernaschi, enquanto sua esposa Carla (Valeria Bruni Tedeschi), compra um teatro e tem um caso com o professor Donato Russomanno (Luigi Lo Cascio).

Queda brusca das ações no fundo Bernaschi – aquele no qual Dino penhorou a casa para poder investir e ai se fecha o círculo central do filme.

O recheio deste círculo, entretanto, é o atropelamento de um ciclista, atribuído, ora ao filho da família rica, ora a filha da família pobre, cuja verdade vai sendo desvendada, paulatinamente, no transcorrer dos três capítulos do filme.

As misérias humanas também vão sendo reveladas ao tempo em que a verdade se descortina:

O seguro da do carro de Massimiliano negociou com a família de Fabrizio Lupi, vítima do acidente, um ressarcimento no valor de €218.976 mil. Valores como esses são calculados com base em parâmetros como: expectativa de vida, capacidade para o trabalho e a quantidade e qualidade dos lações afetivos. Os avaliadores de seguro o chamam de CAPITAL HUMANO”.

BRAVÍSSIM@S TOD@S! Do realizador Paolo Virzì ao mais secundário no elenco, tudo reflete com coerência um drama coeso e impecável no qual estão inseridas as misérias humanas, no mais particular, operístico e delicioso jeito italiano de fazer cinema.

Eu super recomendo. 

Confira o trailler:

video

domingo, 27 de julho de 2014

O palestino "Omar" (2013)

Dirigido por Hany Abu-Assad, Omar foi o segundo longa metragem palestino a ter uma indicação para o Oscar (Melhor Filme Estrangeiro, em 2014 – perdeu para o italiano A Grande Beleza, do Sorrentino).

O primeiro fora Paradise Now-2006, do mesmo diretor Hany Abu-Assad, que perdeu para o sul-africano Tsotsi.

Omar foi gravado em Nazaré, norte de Israel, e em vários lugares dos territórios palestinos ocupados, na Cisjordânia e venceu o prêmio do júri no Festival de Cinema de Cannes, em 2013, ocasião em que foi ovacionado, em pé, por cerca de cinco minutos.

De fato, o desejo que se tem, ao final do filme, é de aplaudi-lo em pé, por pelo menos cinco minutos (e a gente sabe das dificuldades que os filmes palestinos têm para ser indicados a premiações internacionais devido ao não reconhecimento da Palestina como um Estado soberano).

O filme nos oferece uma trama inteligente, misturando uma história amorosa e as relações políticas do cenário palestino, ambas dramáticas.

Omar (Adam Bakri) é um jovem padeiro que ama Nádia (Leem Lubany), irmã de seu amigo de infância e procurado líder da resistência, Tarek (Eyad Hourani).

Em meio às juras de amor trocadas em segredo por Nadia e Omar, o conflito é travado entre a perseguição implacável do serviço secreto israelense e o ativismo junto aos guerrilheiros palestinos.

Difícil saber qual dos três é mais cruel: o serviço secreto israelense, os guerrilheiros palestinos ou as armadilhas do amor.

Através do triângulo amoroso formado entre Omar, Nádia e Amjad (Samer Bisharat) - outro jovem, também amigo de infância de Omar e Tarek -, somos conduzidos ao cenário da implacável impiedade na qual se constitui a Ocupação Palestina.

Além da direção, Hany Abu-Assad também assina o roteiro dotado de inteligência e profundidade e que gira em tono do eixo central constituído pela filigrana da alma humana, fruto e origem da extrema vilania na qual se constitui a questão palestina.

Omar teve o custo equivalente a menos de um quinto do preço de uma produção hollywoodiana: dois milhões de dólares.

A exemplo do saudita O Sonho de Wadjda, custeado com ajuda de empresários e solidários à questão feminina no mundo Árabe, Omar foi completamente financiado por cidadãos e empresários palestinos.

Segundo o diretor Hany Abu-Assad, é a primeira vez que os empresários palestinos se convenceram a investir na indústria cinematográfica do país.  “Isso é incrível!", declarou o diretor.

Incrível é você, Hany Abu-Assad! Se eu tivesse condições, também investiria!

domingo, 25 de maio de 2014

The Railway Man (2013)

Uma Longa Viagem é um filme australiano que se baseia na história real de Eric Lomax, engenheiro que, como oficial britânico, foi capturado em Singapura pelos japoneses durante a 2ª Guerra e enviado como prisioneiro para construir a Ferrovia da Birmânia (também conhecida por Ferrovia da Morte).

A ferrovia foi construída e percorre 415 km entre Banguecoque, na Tailândia, e Rangum, na Birmânia (actual Myanmar).

O filme se baseia na obra do próprio Lomax, que morreu com 93 anos, em 8 de Outubro de 2012, depois de iniciada a produção do filme.

Dirigido por Jonathan Teplitzky, o drama nos coloca diante de um grupo de veteranos ingleses da 2ª guerra, cinquenta anos depois dos episódios da construção da ferrovia.

Eric Lomax, interpretado por Colin Firth, tem por hábito andar em trens, fruto das questões vividas durante a guerra, e um dia conhece e se apaixona por Patti (Nicole Kidman), com quem se casa e a quem acaba demonstrando seu comportamento traumático, decorrente da guerra das torturas sofridas.

O assunto é tabu entre os veteranos, mas Patti procura o melhor amigo de Lomax, Finlay (vivido pelo ótimo Stellan Skarsgård – o Seligman de Nymphomaniac) na tentativa de ajudar o homem que ama e salvá-lo de si mesmo.

Na conversa entre Patti e Finlay, é nos dado a conhecer os absurdos causados pela guerra e as horrendas torturas a ele impingidas pelos japoneses, após Lomax e seus amigos ingleses terem sido pegos ouvindo um rádio que construíram, apenas para recepção das notícias a respeito do que estava se passando no mundo.

O filme, então, se desdobra em dois: passado e presente. Jeremy Irvine vive o Jovem Lomax e somos apresentados a Takashi Nagase (Hiroyuki Sanada), o mais cruel torturador de Lomax.

O velho Lomax, na interpretação extraordinária de Colin Firth, é colocado diante do dilema de ter que resolver seus traumas do passado para salvar seu casamento e a si mesmo.

Descobrindo que Nagase estava vivo, empreende viagem à Tailândia para acertar as contas com seu torturador.

O que se passa a partir daí é uma história delicada, expressão do melhor e maior que o ser humano pode conter em seu coração.

Mandou bem o diretor australiano, que tem apenas outros três filmes em seu currículo [Better Than Sex (2000), Gettin' Square (2003) e Burning Man (2011).]

Um belo filme. Eu recomendo!

Veja o trailler:

domingo, 23 de março de 2014

Tapas na cara por Lars Von Trier - Diálogos em Nymphomaniac - V. II

SELIGMAN: Ícones geralmente são ligados à Igreja Oriental. Eu posso ser um pouco teórico?
JOE: Sim. Eu gostaria que você me falasse sobre o seu quadro.

SELIGMAN: Embora a Igreja Cristã tenha sido dividida em 1054 por diferenças de opinião entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente, o que chamamos hoje de Igreja Ortodoxa e de Igreja Católica Romana, esse é o típico ícone da Igreja Oriental. Ele geralmente retrata a Virgem Maria e o menino Jesus e, mais raramente, por exemplo, a crucificação, que na Igreja do Ocidente foi muito mais prevalente. Se você generalizar, poderia dizer que a Igreja do Ocidente é a Igreja do Sofrimento, e a Igreja Oriental é a Igreja da Felicidade. Se imaginar uma viagem mental de Roma para o Leste, você se sente como se você se afastasse da culpa e da dor para a alegria e para a luz.

Tapas na cara por Lars Von Trier - Diálogos em Nymphomaniac - V. II

SELIGMAN: No começo, você disse que o seu único pecado foi ter exigido mais do pôr do sol. Ou seja, acho que você queria mais da vida do que era bom para você. Você era uma pessoa exigindo o seu direito e mais do que isso, você era uma mulher exigindo esse direito.

JOE: Isso perdoa tudo?

SELIGMAN: Você acha que se dois homens entrassem em um trem à procura de mulheres, alguém levantaria uma sobrancelha, ou se um homem tivesse tido a vida que você teve? E a história da Sra. H. seria muito banal, se você fosse homem e a sua conquista teria sido uma mulher. Quando um homem deixa seus filhos por causa do seu desejo, aceitamos com indiferença, mas você como uma mulher você teve que assumir uma culpa, um fardo de culpa que nunca poderia ser aliviado. Ou seja, toda a reprovação e culpa que se acumularam pelos anos, foram demais para você, e você reagiu de forma agressiva, quase como um homem, tenho que dizer. E você lutou. Você lutou contra o sexo que tinha sido oprimido e mutilado e matado você e milhares de mulheres.

Tapas na cara por Lars Von Trier - Diálogos em Nymphomaniac - V. II


SELIGMAN: Você não deveria usar essa palavra. Não é o que se chama de "politicamente correto". 'Negro'.

JOE: Bem, me desculpe, mas nas minhas relações, sempre foi um sinal de honra chamar os bois pelos nomes. Cada vez que uma palavra se torna proibida, você remove uma pedra do alicerce democrático. A sociedade demonstra sua impotência em face de um problema concreto, removendo palavras da língua.

SELIGMAN: Acho que a sociedade diria que... Politicamente correto é uma expressão muito precisa de preocupação democrática para as minorias.

JOE: E digo que a sociedade é tão covarde quanto as pessoas nela... Que, na minha opinião, também são demasiado estúpidas para a democracia.

Entendo o seu ponto, mas discordo totalmente. Não tenho nenhuma dúvida sobre as qualidades humanas. As qualidades humanas podem ser expressas em uma palavra:  hipocrisia.

Enaltecemos aqueles que dizem o certo, mas desejam o errado... E zombamos daqueles que dizem o errado, mas desejam o certo.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Nymphomaniac Volume II - o feminismo explícito em Lars Von Trier.

Ai você sai do cinema, depois de ler os últimos créditos com informações sobre a trilha sonora do filme, referências a todas as citações feitas (me lembro de ter visto Tarkovsky nesses créditos), o curioso aviso de que os atores do filme não foram submetidos a nenhum ato de penetração sexual e tudo o mais, e a vontade que dá é de gritar: LARS VON TRIER, SEU GÊNIO, EU TE AMOOOOOOOOOOOO!!!!

Não vou antecipar nada sobre o roteiro do filme, mas digo que no início do segundo volume de Nymphomaniac você chega a se irritar com Lars, por um nanocentésimo de segundo, por conta do que parece que vai tomar um rumo um tanto quanto caricato.

Só que não! Claro que não! Óbvio que quando se trata do genial, fabuloso, magnífico e cruelmente inteligente Lars Von Trier, não existirão obviedades!

Ou seja, a única obviedade é que nada óbvio acontecerá jamais num filme de Lars.

Enquanto isso, ele insiste na questão do desejo. Mas, e fica muito claro pra mim agora, única e tão somente na questão do desejo feminino.

Desvenda-se, nesta segunda parte do filme, que a questão central do que se iniciou com Nymphomaniac Volume I é exatamente a clássica pergunta de Freud: “afinal, o que quer uma mulher?”

E, no visceral desfecho do filme, Lars responde, a la Lacan: “ela quer gozar!

E ai, novamente, como faz em todos os seus filmes, o homem é apresentado como fraco, ainda que, neste, não haja um personagem masculino específico escolhido para encarnar o papel do “covarde”, em Nymphomaniac Volume II, Lars Von Trier termina por arrasar com o gênero todo, de uma só vez, com uma só roçada de foice.

Então, em seu relato psicanalítico para Seligman (Stellan Skarsgård), quando Joe (Charlotte Gainsbourg) está no limite da exaustão gerada por sua inadequada sexualidade, cheia de culpas pelo desejo, ouvimos Seligman ponderar, relembrando momentos anteriores do filme, desde o Volume I, que ninguém estranharia se fossem dois homens procurando por uma mulher num trem e que a sociedade não condena o homem que abandona os filhos por causa de seu desejo, assim como não o condena por praticar sexo com duas ou mais mulheres, e segue nos fazendo questionar se nos soariam tão repulsivas as experiência vividas e relatadas por Joe, caso tivessem sido praticadas por um homem e não por uma mulher.

Quero ver mulher que não se emocione neste ponto do filme.

Eu chorei. E choro agora, de novo, relembrando aquele rico diálogo, que costura o filme todo e nos faz refletir sobre o quanto ainda estamos sujeitas ao domínio do masculino, único gênero a quem é socialmente permitido desejar sem limites, permissão esta que, por exclusiva, muitas vezes, nos preenche de agressividade (masculina) e nos coloca em postura de agir como homens, para nos fazer ouvir e tentar sobreviver numa confusa tentativa de liberdade de ser...

O filme tem fortes cenas de sadomasoquismo, mas é Lars Von Trier quem bate pesado na cara de todo mundo, ao enquadrar a sociedade patriarcal e machista sob a ótica do homem covarde, fraco e dependente, assim produzido por esta própria sociedade, a qual está submetido em sua covardia (a fim de manter subjugado o perigoso desejo feminino), e a quem tudo é permitido em questões de desejo e, que, por isto, tiraniza a mulher ao seu bel prazer. Com a sua própria conivência, é evidente, introjetada exatamente por este asqueroso sistema de domínio, que leva a uma constante retroalimentação de culpas num círculo vicioso de mortificações da mulher que deseja.

É com extrema segurança e certeza de quem sabe do que está falando, que Lars Von Trier conduz esses diálogos, sobretudo os finais, numa conclusão perfeita que faz você ouvir a voz dO Cara te dizendo: mulher, liberte-se! Assuma o seu desejo! Goze o gozo vivo! Não adormeça!

E ai não tem como não sair do cinema amando mais, se é que possível amar mais ainda, esse gênio dinamarquês que faz cinema conclamando à libertação e esfregando na nossa cara, deslavadamente, a ruína da sociedade patriarcal que, sim, ainda nos oprime!

Meu analista que me perdoe, mas hoje Lars Von Trier me adiantou alguns anos de terapia.

A este respeito, aliás, na cena final, antes de seu ápice libertador, Joe diz a Seligman que ter lhe relatado toda a sua história, trouxe a ela uma espécie de alívio e a possibilidade de tomar uma decisão, numa clara indicação de que o que se deu ali, foi uma grande sessão de psicanálise.

Ainda que, perceba-se bem, pela decisão inicialmente tomada por Joe, o insight gerado tenha sido castrador.

Ou não, pois a sequência seguinte, e grande final do filme, demonstra claramente a libertação do desejo desta mulher que porta o masculino nome de Joe.

...Tanta coisa mais pra dizer, a virgindade de Seligman e sua característica confessada de ser assexuado... A interessantíssima quase repetição da cena de Anticristo, onde o menino cai da janela (aqui não cai) ao som de Lascia ch’io pianga, de Händel... Charlotte Gainsbourg, Shia LaBeouf, Willem Dafoe...

Informações sobre história das religiões, trazidas por Seligman ao tempo em que nos é mostrada em sua parede cópia de uma obra antiga de Andrei Rublev, um dos maiores artistas russos da idade média que pertencia à igreja ortodoxa russa e pintava ícones religiosos (cuja história foi filmada por Tarkovsky em 1971), onde nos é contado que o Cristianismo se dividiu em igreja ortodoxa (cristianismo oriental) e igreja romana (cristianismo ocidental), sendo que a igreja oriental adotou muito mais os símbolos de Maria com Jesus no colo, numa clara opção pela alegria e pelo prazer, enquanto a igreja ocidental adotava o crucifixo e a via dolorosa de Cristo como símbolos predominantes, em evidente escolha por dor e sofrimento.... (e culpa e culpa e culpa!!!)

Questionamentos sobre a coisa 
da obrigatoriedade da utilização dos termos politicamente corretos, o que, para Joe, que insiste em chamar africanos de negros, a despeito da advertência de Seligman, abalaria os alicerces do estado democrático. E isto, pra mim, é um recado claro de Lars Von Trier para a hipócrita Hollywood que o boicotou em 2012 em função de algumas declarações suas, mal interpretadas, a respeito de Hitler...

Enfim, a conversa de Lars com a gente é forte! Forte, direta, reta e colocada; ele nos olha diretamente nos olhos e conversa conosco como somente um Homem muito forte é capaz de fazer!

Pra fechar, voltando à coisa do masculino, outro dia meu analista me perguntava se não existe nenhum homem neste mundo que eu não considere fraco, nem na literatura ou algo assim e eu, após pensar um pouco respondi que sim, havia um único: um diretor dinamarquês chamado Lars Von Trier, que tinha a coragem de retratar a covardia masculina em todos os seus filmes.

Perdoem meninos, no abraço mais carinhoso de quem nasceu hétero e não pode viver sem vocês e na mais cristalina certeza de que somente os bravos e os fortes terão sabido ouvir tudo isto sem se acovardar! É que esse Lars Von Trier é mesmo hors-concours!

E, pra me redimir de qualquer ofensa, a magistral Lascia ch’io pianga na voz da magnífica soprano Cecília Bartoli:




Lascia ch'io pianga
mia cruda sorte,
e che sospiri
la libertà.
Il duolo infranga
queste ritorte
de' miei martiri
sol per pietà!

(Deixe que eu chore
Minha sorte cruel,
Que eu suspire
Pela liberdade.
A dor quebra
Estas cadeias
De meus martírios,
Só por piedade!
)